
30 de dezembro de 2009
Em 2010 a Primeira Coletânea de Artigos do Blog

Manual completo para profissionais e amantes da Equitação e Equoterapia . Em 2010 publicaremos nossa primeira coletânea de artigos do blog Equitação & Equitação Especial . São cento e onze artigos já publicados e ainda algumas matérias extras publicadas por nossos colaboradores . Os artigos abordam temas como a História da Equitação e do Método Equoterapia , Técnicas de manejo , treinamento e horsemanship voltadas a Equoterapia e a Equitação Especial . A coletânea de artigos não estará a venda . Para concorrer torne-se um seguidor do nosso blog e participe ! Confirme sua inscrição enviando email para equitacaoespecial@gmail.com
28 de dezembro de 2009
Transdisciplinaridade e Equoterapia : um novo paradigma


Em primeiro lugar, a recusa a reduzir o ser humano a quaisquer que sejam as definições oferecidas pelas filosofias disponíveis. Em segundo lugar, a aceitação de diferentes níveis de realidade regidos por diferentes tipos de lógica. Em terceiro, a abordagem das disciplinas oferecida pela transdisciplinaridade, inclusive a nova visão da natureza e da realidade, tanto quanto a recusa da superioridade de uma determinada disciplina sobre qualquer outra. E a unificação prática e semântica de significados que transpassam e vão além de todas as disciplinas. Estamos ainda sujeitos a condicionamentos mecanicistas e reducionistas implícitos no paradigma Cartesiano/Newtoniano. O homem foi feito máquina. E assim, tornou-se objeto de técnicos. Além disso, os meios e as relações de produção capitalistas geraram um profundo processo de ruptura, de fragmentação, de egocentrismo, de desintegração da solidariedade. O homem é partido em múltiplas e conflitivas personae, a maioria delas determinadas pelas necessidades de produção e pelas demandas da sociedade capitalista. Bens de consumo baratos produzidos em larga escala são a fonte de poluição e degradação que estão ameaçando o meio ambiente em que vivemos. Fundamentalismos religiosos, sectarismos de diversos tipos, cegueiras e loucuras políticas, extremas avareza e cobiça sob o título de livre mercado são a fonte de miséria extrema, guerras e degradação humana. No campo da saúde humana, processos semelhantes acontecem. Pesquisas médicas são direcionadas às doenças geradoras de lucros e às suas drogas curativas. Parquíssimos recursos são destinados à prevenção, educação e saúde pública. O corpo humano é retalhado em partes e entregue aos cuidados de diferentes técnicos e técnicas. Sem alma, sem totalidade, sem ternura. Avareza e corrupção emergem. Ao final de tudo, pode-se concluir que as práticas políticas e as teorias econômicas ainda prevalentes abrem caminho para considerar todas essas perversidades como valores básicos, quando são de fato cruéis, fragmentadoras e polimórficas patologias humanas. Em julho de 1997, em uma entrevista para a revista Label France conduzida por Anne Rapin, quando perguntado sobre globalização e a “era planetária”, Edgar Morin respondeu que “…De fato, porque a globalização está fora de controle, ela é acompanhada por muitas instâncias de regressão. Mas, é uma possibilidade que poderia ser desejável. Obviamente, a globalização tem um aspecto muito destrutivo: ela gera anonimato, reduz as culturas individuais a um denominador comum e padroniza identidades. Contudo, ela é também uma oportunidade única para promover a comunicação e o entendimento entre as várias culturas dos povos do planeta e encorajar sua mistura (blending). Este novo capítulo acontecerá apenas quando nos tornemos inteiramente conscientes do fato de que somos cidadãos do planeta antes de tudo, e então europeus, franceses, africanos, americanos... o planeta é nosso lar, um fato que não nega os lares individuais de outros. A consciência de nosso destino global como uma comunidade é o pré-requisito para a mudança que nos permitiria agir como co-pilotos do planeta, cujos problemas se tornaram inseparavelmente inter-relacionados. Caso contrário, iremos experimentar um destino semelhante àquele da “balcanização”, uma retaliação violenta e defensiva contra etnias específicas ou identidades religiosas, o que é o oposto deste processo de unificação e solidariedade através do planeta.” Agora, a globalização aqui está, a diversidade está aqui; o pensamento linear causa-efeito ainda regula nosso mundo moderno. Como podemos lidar com um tão vasto universo de disciplinas? Como a transdisciplinaridade pode nos ajudar? O campo atual da equoterapia em todo o mundo é ainda fortemente marcado pelo paradigma tradicional Cartesiano. A Babel de expressões que perpassa nosso campo de trabalho é um sintoma preocupante, mais do que uma salutar diversidade. Marguerite Malone (Serendipity Farm, Tuscaloosa/Alabama) chamou-me a atenção para um artigo de autoria de Ann C. Alden, ex-presidente da EFMHA, no qual se empenha em listar e definir os vários anacronismos usados no campo e que ela chama de “Sopa de Alfabeto”, que poderíamos chamar de “Sopa de Letrinhas”. Para ilustrar o sintoma acima descrito, apresentamos a seguir uma breve lista de denominações usadas para identificar o que fazemos. – Riding therapy (terapia através de equitação); – Therapeutic riding (equitação terapêutica); – Riding for the handicapped (equitação para deficientes); – Riding for the disabled (equitação para incapacitados);– Hippotherapy, hippotherapie (hipoterapia); – Equinoterapia; – Equotherapy, equoterapia; – Equine Assisted Therapy (terapia com auxílio de eqüino); – Equine Facilitated Therapy (terapia facilitada pela utilização de eqüinos); – Horseback Assisted Therapy (terapia com apoio de montaria a cavalo); – Equestrian re-education (reeducação eqüestre); – Equestrian rehabilitation (reabilitação eqüestre). Sofremos todos, com certeza, as conseqüências de nossa “Sopa de Alfabeto”, em nossa querida Torre de Babel. Comunicações difíceis, algumas vezes impossível, para dizer o menos. Não apenas entre nós, mas também com nossos associados, patrocinadores, praticantes e suas famílias e com o público. Embora não seja o propósito deste trabalho justificar e explorar a necessidade de adoção de uma linguagem unificada, este autor sugere enfaticamente a expressão equoterapia, cunhada pela Ande Brasil – Associação Nacional de Equoterapia. Esta palavra simples e densa inclui os termos “Equus” e “therapeia”. A expressão equoterapia está ainda livre de conotações comprometedoras e pode bem representar a abordagem transdisciplinar para as atividades terapêuticas conduzidas com a ajuda de um eqüino e de uma equipe multiprofissional. É seguro que uma palavra universalmente aceita muito contribuiria para unificar o campo das terapias com auxílio do cavalo e o aproximaria muito do paradigma transdisciplinar. Mais sintomático do que a diversidade de denominações para nossa atividade profissional é o modo como categorizamos nossos procedimentos técnicos. Em geral, os procedimentos terapêuticos são classificados de acordo com “programas”, ou metodologias específicas, especializadas, baseadas em um dado modo de perceber a patologia do cliente e suas necessidades percebidas. Eles são muito bem fundamentados, mas são também absolutamente fragmentadores. Eles são diretamente derivados dos paradigmas fragmentários e são por eles condicionados. Programas fragmentários, não importa o quanto sejam bem fundamentados, partem de uma concepção de um sujeito fragmentado e levam a abordagens fragmentárias, a equipes fragmentadas. Não podemos desconsiderar os efeitos condicionadores de estigmas avaliativos apoiados em técnicas de diagnóstico fragmentárias, baseados em simples percepções pessoais ou preconceitos institucionalmente predefinidos: equitação para deficientes ou para incapacitados. A diversidade de campos possíveis de conhecimento capazes de contribuir para a amenização do sofrimento humano com a ajuda de eqüinos é imensa. Assim também o número de pessoas capazes de ajudar. Mas, elas estão longe de nós. Elas não atendem aos nossos “elevados” padrões e requerimentos. Elas não estão formalmente incluídas no mundo científico. Pretendemos utilizar metodologias “inclusivas”, mas excluímos mais do que incluímos. De certo modo, agrada-nos sermos “exclusivos”, “prime”. Não é mera coincidência que as estratégias de marketing explorem tanto tais expressões. E elas nos fisgam. É nosso desafio diário colocar em prática o novo paradigma em nossas atividades, em nossos procedimentos terapêuticos. Se a concepção programática é adotada, cai-se facilmente no velho paradigma. Mesmo quando se tem o discurso do novo paradigma, é extremamente difícil colocá-lo em ação. Nossas qualificações profissionais, nossa formação acadêmica, nossos treinamentos e experiências em campos específicos, nosso compromisso formal com limites legais e profissionais, tudo isso contribui para a adesão ao velho paradigma. E esses tópicos não são nada simples. Permitam-me ilustrar meu ponto de vista utilizando o Equovida, um centro de equoterapia no Rio de Janeiro, Brasil, no qual o autor exerce um papel de coordenação. Somos atualmente uma equipe de 14 profissionais: 3 psicólogos, 5 fisioterapeutas, 3 fonoaudiólogos, 1 arte-terapeuta, 2 profissionais de equitação, e dispomos de cinco cavalos. Esta equipe desenvolveu-se através de um processo de seleção natural, com muita discussão. Quem deve conduzir o cavalo? Quem conduz a sessão terapêutica? Consideremos um primeiro caso: uma menina com paralisia cerebral. Este é um caso para hipoterapia, certo? O equitador conduz o cavalo, o fisioterapeuta conduz a sessão, certo? O psicólogo conversa com a família, certo? Vejamos o segundo caso: um menino autista. Este é um caso para o psicólogo, que conduz a sessão, certo? O equitador conduz o cavalo, certo? Posso ousar dizer que a resposta pode ser não, que não está certo? A menina com a paralisia cerebral pode ter sérios problemas de comunicação, possivelmente devidos a uma certa ordem de deficiências. O menino autista pode também apresentar sérios problemas de comunicação, possivelmente devidos a outros tipos de mau funcionamento. Nós reconhecemos que também nós temos sérios problemas de comunicação. Discutimos os casos. Todos da equipe. Todos, mesmo: psicólogo, fisioterapeuta, fono, arte-terapeuta, equitador. E outros profissionais, caso os tivéssemos. Após a discussão, três ou quatro de nós vamos para a pista, todos ao mesmo tempo. Nossas sessões são sempre individuais, no que diz respeito ao praticante. Um praticante, três ou quatro terapeutas. Algumas vezes, duas sessões ocorrem ao mesmo tempo: dois praticantes, cada um com sua equipe. Os praticantes escolhem o seu parceiro principal e certamente nos ajudam a escolher o cavalo. O parceiro principal conduz a sessão. As intervenções fluem. Algumas vezes, o equitador faz a interlocução com o praticante, o fisioterapeuta conduz o cavalo, a fono faz o apoio lateral, a arte-terapeuta conversa com a família. Ao final do dia, mais discussões em equipe. A interpenetração é permanente, os quebra-cabeças são compostos de peças que mudam de forma e apresentam figuras diferentes. Nenhuma peça é rígida, fixa. Muitas vezes, o estresse emerge. O caminho mais curto não é necessariamente o melhor caminho. Mais discussão é necessária. Quando o sol começa a se pôr atrás das montanhas e a luz amarelo-alaranjado do entardecer se filtra através das folhas da grande mangueira, um halo mágico ilumina a pista. As selas, brinquedos, cabeçadas são recolhidos e guardados. Grupos se reúnem; vozes, emoções, piadas, abraços, despedidas. Outro longo e exaustivo dia acaba. Esta é a nossa equoterapia.
Amauri Solon Ribeiro - Resumo
21 de dezembro de 2009
O Efeito Positivo da Equoterapia em Cegos

Implicações da equoterapia para o cego
Estimulação sensorial :Segundo Figueira (1996), o profissional, que tem como objetivo promover o desenvolvimento da criança cega, deve conhecer bem suas capacidades e seus potenciais, para explorá-los no decorrer do processo terapêutico. A criança cega não é capaz de se orientar, nem realizar adaptações em seu sistema muscular de acordo com as variações de posição, distância, tamanho e forma. Pela ausência da visão, as combinações autocorretivas de reforço mútuo entre a visão e as respostas motoras ficam muito comprometidas.Devemos lembrar que não existe substituição de um sentido por outro. O conjunto sensorial funciona em sinergismo, em que nenhum dos sentidos realiza suas funções de forma isolada, eles se retroalimentam. Nesse sentido todo o processo terapêutico deve promover uma ampla estimulação dos outros sentidos em conjunto.Nesse caso a equoterapia cumpre o seu papel terapêutico/educativo e de estimulação global do praticante cego, pois como diz Botelho (1999, p. 149):... a cada passo do cavalo o centro de gravidade do praticante é defletido da linha média, estimulando as reações de equilíbrio, que proporcionam a restauração do centro de gravidade dentro da base de sustentação. O sistema vestibular é assim repetidamente solicitado, estimulando continuamente suas conexões com o cerebelo, tálamo, córtex cerebral, medula espinhal e nervos periféricos. Por meio de inúmeras repetições do movimento do andar do cavalo, o mecanismo dos reflexos posturais e a noção de posição dos vários segmentos corporais no espaço são reeducados durante 30 minutos da sessão de equoterapia.Levando-se em consideração o local onde são realizadas as sessões de equoterapia, que por suas características naturais apresenta diversos estímulos auditivos e olfativos, além dos de comunicação que são proporcionados pela equipe multidisciplinar que realiza a intervenção, podemos considerar como um recurso que pode oferecer ao cego uma estimulação global e motivadora. Como diz Heimers (1970, p. 35):Os estímulos que vem de fora constituem um fator importante na vida dos videntes, e os cegos os desconhecem, por isto, devemos manter sempre alertas esses estímulos, devemos despertar o interesse da criança cega para que ela não caia no marasmo. O movimento ao ar livre, na natureza, traz consigo um mundo de ensinamentos e experiências.Reeducação postural :A coordenação e o ritmo de uma criança cega ao andar podem ser mais desordenados do que os de uma criança com visão. Se a criança cega não for encorajada a conduzir seu corpo de maneira adequada, pode ser que mantenha uma grande distância entre as pernas ao ficar ereta e desenvolva uma má postura e uma forma de andar incorreta. Um problema comum é o da criança que deixa cair a cabeça sobre o peito. A criança cega deve ser instada a manter a cabeça erguida, perpendicular em relação ao chão (Oliveira, 1996).A equoterapia vai ajudar na correção da postura, pois como diz Herzog (1989, p. 17):
... manter o equilíbrio significa, a principio, reconhecer uma atitude corporal pelo senso postural, depois reajustar sua posição. O cavaleiro deve coordenar seus próprios movimentos e dissociar os gestos dos braços e pernas. Ele é, portanto, conduzido a uma melhor compreensão de seu esquema corporal. Ele adquire, desde um primeiro contato, o domínio corporal, aprendizagem que, num primeiro momento, vai ser favorecida pelo terapeuta. É um trabalho que demanda concentração.Sabemos que o aprendizado das técnicas eqüestres exige que o cavaleiro mantenha uma colocação correta na sela, ou seja, manter o tempo todo uma postura adequada, o tronco ereto e a cabeça perpendicular em relação ao solo, além de ter que dissociar os movimentos de braços e pernas, para que acompanhe os movimentos tridimensionais do dorso do cavalo e possa realizar o manejo correto das rédeas.Durante as sessões de equoterapia, essas ações são desenvolvidas e estimuladas pelos terapeutas, fazendo com que o praticante realize o aprendizado correto da postura a cavalo. E como essas estimulações ocorrem por um período de 30 minutos, o número de informações proprioceptivas que provêm das regiões articulares, musculares, periarticulares e tendinosas são bastante diferentes das fornecidas quando estamos na posição de pé. As informações proprioceptivas dadas pelo passo do cavalo permitem a criação de esquemas motores novos: trata-se da reeducação neuromuscular.Relação com o outroPaschoal (citado por Araujo, 1997), ao falar de educação psicomotora para crianças cegas, diz que é necessário permitir que a criança cega, desde pequena, se utilize do contato físico na relação corpo a corpo. Num trabalho psicomotor é necessário que o adulto permita essa entrega de si, para que ela possa sentir que o outro se movimenta, gesticula e que ela também pode se movimentar, gesticular, se soltar, etc. O autor diz que há nesse ato uma tomada de consciência por parte da criança do potencial motriz do seu corpo, de uma forma muito natural, livre, na brincadeira, no jogo, no momento em que ela está mais aberta, pois está mais absorta.A equoterapia, como uma atividade que envolve a psicomotricidade, pode proporcionar à criança cega esse contato físico e de uma forma muito mais ampla, pois, desde o momento que o praticante cego chega ao local das sessões, ele é recebido pelos terapeutas e auxiliares e, enquanto aguarda sua vez, participa de jogos e brincadeiras, que permitem essa relação corpo a corpo. Quando está montado, esse contato físico passa a ser com o cavalo, que ele explora por meio dos outros sentidos, enquanto realiza os exercícios programados e o cavalo está ao passo.Os diversos movimentos que ocorrem numa sessão de equoterapia além de contribuírem para essa tomada de consciência de seu potencial motriz , ocorrem, geralmente, de uma forma bastante prazerosa . Estimulação para o desenvolvimento tátil Grifin e Gerber (1996, p. 15), em seu artigo Desenvolvimento tátil e suas Implicações na Educação de Crianças Cegas, ao se referirem ao desenvolvimento tátil de crianças cegas dizem que: ... a modalidade tátil é de ampla confiabilidade. Vai além do mero sentido do tato: inclui também a percepção e a interpretação por meio da exploração sensorial. Esta modalidade fornece informações a respeito do ambiente, menos refinadas que as fornecidas pela visão. As informações obtidas por meio do tato têm de ser adquiridas sistematicamente, e reguladas de acordo com o desenvolvimento, para que os estímulos ambientais sejam significativos. [...] A ausência da modalidade visual exige experiências alternativas de desenvolvimento, a fim de cultivar a inteligência e promover capacidades sócio-adaptativas. O ponto central desses esforços é a exploração do pleno desenvolvimento tátil.O programa por nós desenvolvido e aplicado no atendimento equoterápico de crianças cegas privilegiou a estimulação tátil, pois desde o primeiro momento em que chegam ao local de realização das sessões, as crianças são estimuladas a efetuar o reconhecimento da área, o que chamamos de ambientação, e é por meio da experiência tátil e dos outros sentidos que a realizam. Em seu primeiro contato com o animal, a criança, por meio da modalidade tátil poderá perceber sua forma, a textura do seu pelo, o calor de seu corpo, seus movimentos respiratórios, as diferenças dos pelos da crina e da cola, e aos poucos o reconhecimento dos equipamentos de montaria que serão utilizados durante as sessões. Esse procedimento é repetido em todas as sessões, para que a criança cega adquira o reconhecimento da estrutura e da relação das partes com o todo e também a consciência de qualidade tátil, importante para o seu desenvolvimento.Reforço e motivaçãoA esse respeito Figueira (1996, p. 8), diz o seguinte: ... em cada etapa do desenvolvimento uma capacidade emerge e é trabalhada pelo organismo, passando a ser integrada em uma escala crescente de desenvolvimento. Para que isto ocorra a criança necessita ser encorajada e reforçada pelos pais. Se não há reforço e motivação esta criança será invadida por uma sensação de insegurança e medo. O desenvolvimento psicomotor se realiza pela combinação do prazer que a criança sente ao ter experimentado algo novo (uma aquisição motora e/ou sensorial) e o reforço familiar à aquisição feita. Na equoterapia, os praticantes são encorajados e reforçados pelos membros da equipe que estão realizando a intervenção e, a todo momento, a cada ação realizada, a cada insegurança vencida, são estimulados a continuarem. Todo esse trabalho é realizado de forma a tornar o tempo em que permanecem montados o mais agradável e prazeroso possível, além de aproveitar todos os momentos e situações para o desenvolvimento dos outros sentidos.Aquisição ou reaquisição de esquemas motores e/ou mentais .As crianças cegas devem ter a oportunidade de vivenciar experiências totais de forma inteligente, ampla e generalizada que não somente compreendam conhecimento verbal e tátil dos objetos, mas também sua posição no espaço e no tempo, suas relações com a criança e com outros seres e objetos. Dessa forma ela vai se organizando, conhecendo e sentindo-se segura e confiante para se lançar em novas experiências (Figueira, 1996). Nesse contexto o cavalo é um instrumento cinesioterapêutico, um ser vivente, dócil, que responde aos afetos que recebe, que tem vontade própria e que precisa ser dominado, para que o cavaleiro realize o manejo que desejar. Para Cittério (1999, p. 35): “A equoterapia poderá ser colocada num importante processo de aquisição ou reaquisição de esquemas motores e/ou mentais, no qual o indivíduo se tornará protagonista do momento reabilitador, um indivíduo ativo porque motivado pela relação com um outro ser vivente.” Herzog (1989) relata que o cavalo pode ser um instrumento de acesso entre a realidade do praticante e a do terapeuta, funcionando ainda como intermediário entre o mundo intrapsíquico do praticante e o mundo exterior. Assim, o cavalo proporciona ao praticante a criação de uma nova imagem corporal, devido às informações recebidas da montaria e à relação com a equipe, o que favorece a estruturação do eu. O deslocamento a cavalo, tendo pontos de referência (no nosso caso estímulos sonoros), exige a representação mental do gesto e do deslocamento. O praticante deve respeitar o animal, fazendo com que ele compreenda aquilo que ele, praticante, decidiu sozinho. Isso faz com que o praticante que não fazia isso na vida cotidiana, o faça com o cavalo, resultando em uma revolução própria.Estimulação motora
Figueira (1996), quando reporta à assistência fisioterápica à criança cega congênita, reafirma que a melhor ajuda que a fisioterapia pode prestar é por meio da estimulação motora. A criança deve aprender a se movimentar, a conhecer seu corpo e ter prazer em se deslocar para descobrir o mundo que a cerca e dominar o espaço. A passividade impressa pela ausência da visão pode implicar alterações nas seguintes áreas: tônus muscular, postura, coordenação motora e psíquica, equilíbrio, orientação espacial, cinestésica e social. O recurso mais apropriado é a cinesioterapia por meio de exercícios passivos, ativo-assistidos e ativo-livres, de acordo com o propósito em questão. A cinesioterapia, ou seja, terapêutica pelo movimento pode ser realizada pela estimulação auditiva, olfativa, gustativa, tátil, proprioceptiva e cinestésica, visando a desenvolver a consciência corporal, a coordenação motora, o equilíbrio, a correção postural, a marcha e a orientação no espaço. A respeito dos ganhos em nível neuromotor, da equoterapia, Cittério (1992) relata que estes se evidenciam sobre o alinhamento corporal (cabeça, tronco, quadril), controle das simetrias globais, equilíbrio estático e dinâmico e que em nível psicológico percebe-se a melhora na capacidade de orientação e de organização espacial e também na capacidade executiva. Na equoterapia o cavalo atua como agente cinesioterapêutico, facilitador do processo ensino–aprendizagem e como agente de inserção e reinserção social. Cittério (1999) aborda o assunto, afirmando que não devemos nos esquecer da hipótese comportamentalista na qual se baseia a equoterapia, método considerado como condicionamento motor impresso no ritmo e no comando, também chamado de “pedagogia em movimento” ou ainda “ciência do movimento”, e outros autores o tratam como “sistema de vida”.
... manter o equilíbrio significa, a principio, reconhecer uma atitude corporal pelo senso postural, depois reajustar sua posição. O cavaleiro deve coordenar seus próprios movimentos e dissociar os gestos dos braços e pernas. Ele é, portanto, conduzido a uma melhor compreensão de seu esquema corporal. Ele adquire, desde um primeiro contato, o domínio corporal, aprendizagem que, num primeiro momento, vai ser favorecida pelo terapeuta. É um trabalho que demanda concentração.Sabemos que o aprendizado das técnicas eqüestres exige que o cavaleiro mantenha uma colocação correta na sela, ou seja, manter o tempo todo uma postura adequada, o tronco ereto e a cabeça perpendicular em relação ao solo, além de ter que dissociar os movimentos de braços e pernas, para que acompanhe os movimentos tridimensionais do dorso do cavalo e possa realizar o manejo correto das rédeas.Durante as sessões de equoterapia, essas ações são desenvolvidas e estimuladas pelos terapeutas, fazendo com que o praticante realize o aprendizado correto da postura a cavalo. E como essas estimulações ocorrem por um período de 30 minutos, o número de informações proprioceptivas que provêm das regiões articulares, musculares, periarticulares e tendinosas são bastante diferentes das fornecidas quando estamos na posição de pé. As informações proprioceptivas dadas pelo passo do cavalo permitem a criação de esquemas motores novos: trata-se da reeducação neuromuscular.Relação com o outroPaschoal (citado por Araujo, 1997), ao falar de educação psicomotora para crianças cegas, diz que é necessário permitir que a criança cega, desde pequena, se utilize do contato físico na relação corpo a corpo. Num trabalho psicomotor é necessário que o adulto permita essa entrega de si, para que ela possa sentir que o outro se movimenta, gesticula e que ela também pode se movimentar, gesticular, se soltar, etc. O autor diz que há nesse ato uma tomada de consciência por parte da criança do potencial motriz do seu corpo, de uma forma muito natural, livre, na brincadeira, no jogo, no momento em que ela está mais aberta, pois está mais absorta.A equoterapia, como uma atividade que envolve a psicomotricidade, pode proporcionar à criança cega esse contato físico e de uma forma muito mais ampla, pois, desde o momento que o praticante cego chega ao local das sessões, ele é recebido pelos terapeutas e auxiliares e, enquanto aguarda sua vez, participa de jogos e brincadeiras, que permitem essa relação corpo a corpo. Quando está montado, esse contato físico passa a ser com o cavalo, que ele explora por meio dos outros sentidos, enquanto realiza os exercícios programados e o cavalo está ao passo.Os diversos movimentos que ocorrem numa sessão de equoterapia além de contribuírem para essa tomada de consciência de seu potencial motriz , ocorrem, geralmente, de uma forma bastante prazerosa . Estimulação para o desenvolvimento tátil Grifin e Gerber (1996, p. 15), em seu artigo Desenvolvimento tátil e suas Implicações na Educação de Crianças Cegas, ao se referirem ao desenvolvimento tátil de crianças cegas dizem que: ... a modalidade tátil é de ampla confiabilidade. Vai além do mero sentido do tato: inclui também a percepção e a interpretação por meio da exploração sensorial. Esta modalidade fornece informações a respeito do ambiente, menos refinadas que as fornecidas pela visão. As informações obtidas por meio do tato têm de ser adquiridas sistematicamente, e reguladas de acordo com o desenvolvimento, para que os estímulos ambientais sejam significativos. [...] A ausência da modalidade visual exige experiências alternativas de desenvolvimento, a fim de cultivar a inteligência e promover capacidades sócio-adaptativas. O ponto central desses esforços é a exploração do pleno desenvolvimento tátil.O programa por nós desenvolvido e aplicado no atendimento equoterápico de crianças cegas privilegiou a estimulação tátil, pois desde o primeiro momento em que chegam ao local de realização das sessões, as crianças são estimuladas a efetuar o reconhecimento da área, o que chamamos de ambientação, e é por meio da experiência tátil e dos outros sentidos que a realizam. Em seu primeiro contato com o animal, a criança, por meio da modalidade tátil poderá perceber sua forma, a textura do seu pelo, o calor de seu corpo, seus movimentos respiratórios, as diferenças dos pelos da crina e da cola, e aos poucos o reconhecimento dos equipamentos de montaria que serão utilizados durante as sessões. Esse procedimento é repetido em todas as sessões, para que a criança cega adquira o reconhecimento da estrutura e da relação das partes com o todo e também a consciência de qualidade tátil, importante para o seu desenvolvimento.Reforço e motivaçãoA esse respeito Figueira (1996, p. 8), diz o seguinte: ... em cada etapa do desenvolvimento uma capacidade emerge e é trabalhada pelo organismo, passando a ser integrada em uma escala crescente de desenvolvimento. Para que isto ocorra a criança necessita ser encorajada e reforçada pelos pais. Se não há reforço e motivação esta criança será invadida por uma sensação de insegurança e medo. O desenvolvimento psicomotor se realiza pela combinação do prazer que a criança sente ao ter experimentado algo novo (uma aquisição motora e/ou sensorial) e o reforço familiar à aquisição feita. Na equoterapia, os praticantes são encorajados e reforçados pelos membros da equipe que estão realizando a intervenção e, a todo momento, a cada ação realizada, a cada insegurança vencida, são estimulados a continuarem. Todo esse trabalho é realizado de forma a tornar o tempo em que permanecem montados o mais agradável e prazeroso possível, além de aproveitar todos os momentos e situações para o desenvolvimento dos outros sentidos.Aquisição ou reaquisição de esquemas motores e/ou mentais .As crianças cegas devem ter a oportunidade de vivenciar experiências totais de forma inteligente, ampla e generalizada que não somente compreendam conhecimento verbal e tátil dos objetos, mas também sua posição no espaço e no tempo, suas relações com a criança e com outros seres e objetos. Dessa forma ela vai se organizando, conhecendo e sentindo-se segura e confiante para se lançar em novas experiências (Figueira, 1996). Nesse contexto o cavalo é um instrumento cinesioterapêutico, um ser vivente, dócil, que responde aos afetos que recebe, que tem vontade própria e que precisa ser dominado, para que o cavaleiro realize o manejo que desejar. Para Cittério (1999, p. 35): “A equoterapia poderá ser colocada num importante processo de aquisição ou reaquisição de esquemas motores e/ou mentais, no qual o indivíduo se tornará protagonista do momento reabilitador, um indivíduo ativo porque motivado pela relação com um outro ser vivente.” Herzog (1989) relata que o cavalo pode ser um instrumento de acesso entre a realidade do praticante e a do terapeuta, funcionando ainda como intermediário entre o mundo intrapsíquico do praticante e o mundo exterior. Assim, o cavalo proporciona ao praticante a criação de uma nova imagem corporal, devido às informações recebidas da montaria e à relação com a equipe, o que favorece a estruturação do eu. O deslocamento a cavalo, tendo pontos de referência (no nosso caso estímulos sonoros), exige a representação mental do gesto e do deslocamento. O praticante deve respeitar o animal, fazendo com que ele compreenda aquilo que ele, praticante, decidiu sozinho. Isso faz com que o praticante que não fazia isso na vida cotidiana, o faça com o cavalo, resultando em uma revolução própria.Estimulação motora
Figueira (1996), quando reporta à assistência fisioterápica à criança cega congênita, reafirma que a melhor ajuda que a fisioterapia pode prestar é por meio da estimulação motora. A criança deve aprender a se movimentar, a conhecer seu corpo e ter prazer em se deslocar para descobrir o mundo que a cerca e dominar o espaço. A passividade impressa pela ausência da visão pode implicar alterações nas seguintes áreas: tônus muscular, postura, coordenação motora e psíquica, equilíbrio, orientação espacial, cinestésica e social. O recurso mais apropriado é a cinesioterapia por meio de exercícios passivos, ativo-assistidos e ativo-livres, de acordo com o propósito em questão. A cinesioterapia, ou seja, terapêutica pelo movimento pode ser realizada pela estimulação auditiva, olfativa, gustativa, tátil, proprioceptiva e cinestésica, visando a desenvolver a consciência corporal, a coordenação motora, o equilíbrio, a correção postural, a marcha e a orientação no espaço. A respeito dos ganhos em nível neuromotor, da equoterapia, Cittério (1992) relata que estes se evidenciam sobre o alinhamento corporal (cabeça, tronco, quadril), controle das simetrias globais, equilíbrio estático e dinâmico e que em nível psicológico percebe-se a melhora na capacidade de orientação e de organização espacial e também na capacidade executiva. Na equoterapia o cavalo atua como agente cinesioterapêutico, facilitador do processo ensino–aprendizagem e como agente de inserção e reinserção social. Cittério (1999) aborda o assunto, afirmando que não devemos nos esquecer da hipótese comportamentalista na qual se baseia a equoterapia, método considerado como condicionamento motor impresso no ritmo e no comando, também chamado de “pedagogia em movimento” ou ainda “ciência do movimento”, e outros autores o tratam como “sistema de vida”.
Carlos Henrique Silva: Mestre em Psicologia, Professor de Psicologia Experimental e Psicofísica, Membro da equipe do Programa de Equoterapia e do Núcleo de Estudos e Pesquisa Interdisciplinar em Trânsito e Transporte (NEPITT) da Universidade Católica Dom Bosco.
Sonia Grubits: PhD em Semiótica pela Paris 8 (Sourbonne), Doutora em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, Mestre em Psicologia Social pela PUC-SP, Coordenadora do Programa de Mestrado em Psicologia da UCDB.
16 de dezembro de 2009
A Organização da Equitação em Reflexos Condicionados

Quando o cavalo é bem adestrado, o cavaleiro assume o comando das decisões para as mudanças de velocidade e direção com muita facilidade. Ou melhor: a decisão do cavaleiro substitui a decisão do cavalo para acionar o seu sistema reflexo que dará início à cadeia de movimentos. O corpo e as pernas do animal começam a se movimentar automaticamente, mais ou menos como um avião voando ‘no piloto automático’. A questão que deve ser lembrada neste momento é que o cérebro do cavaleiro, aciona a seqüência de movimentos do cavalo e estes são mantidos automaticamente em funcionamento pelas células do sistema nervoso situadas nas dilatações cervical e lombar do animal. Mas o cavalo é perfeitamente capaz de, durante a equitação, tentar tomar decisões por conta própria. Por exemplo, querer disparar de volta para as baias se não estiver gostando do passeio, aproximar-se de outro animal, ou simplesmente empacar diante de alguma coisa que o amedronta. Neste instante, haverá uma disputa entre o cavalo e o cavaleiro pelas tomadas de decisões. Neste momento, também, o cavaleiro inexperiente geralmente tenta retomar o comando à força usando esporas e chicote, que despertam o cérebro e a consciência do animal, e em conseqüência disso a sua rebeldia – e a confusão estará armada, como já vimos centenas de vezes por aí. Numa situação semelhante, o cavaleiro experiente, ao contrário, retomará sutilmente o comando da situação sem se fazer muito notado pelo cavalo – no máximo o animal perceberá a sua presença quando ele transmite, com atitudes e gestos tranqüilos a necessidade de avançar — o bom cavaleiro tem todos os atributos naturais de um líder. O conhecimento da cadeia de reflexos da equitação é de grande importância para o cavaleiro moderno que pode, finalmente, contar com um paradigma científico para a orientação de como organizar os seus comandos de maneira mais técnica e eficiente. O adestramento e o treinamento modernos são simplesmentea organização de toda a ação eqüestre em reflexos que foram condicionados e automatizados pelo adestrador durante muitas horas de treino. Esta organização dos reflexos da equitação do cavalo começa com o adestramento primário, também conhecido como doma de chão, onde o animal aprende a andar, trotar ou marchar, galopar, e mudar de direção, com os comandos emitidos pelo adestrador. A ‘doma’ moderna (1) deve ser entendida como um vôo simulado na aviação onde o cavalo aprende todas as manobras, sem os perigo da ação real. O potro, durante o adestramento primário, vai aprender as ações da equitação (2) administradas de forma compreensiva e progressiva, até receber o cavaleiro no dorso, quando então começa o adestramento básico, também conhecido como doma de cima, que é uma continuação dos mesmos comandos ensinados durante o adestramento primário, agora acionados pelo adestrador montado no dorso do cavalo. Etapa por etapa, o animal, com sua memória biológica infinita, aprende a se movimentar com a destreza e o seu equilíbrio natural, em todos os momentos da equitação. O ‘dressage’, ou adestramento clássico, é a modalidade eqüestre que mais depende da organização dos reflexos naturais do cavalo em seqüências de reflexos automatizados. Todos os andamentos, as transições, as piruetas e os apoios laterais dependem de um longo treinamento do cavalo e do cavaleiro para atingirem a fluência e perfeição destes movimentos cooperados. No hipismo, a aproximação dos obstáculos e a organização corporal do cavalo e do cavaleiro para realizarem o salto com movimentos casados, também requerem uma seqüência de reflexos ensaiados e automatizados para garantir o rendimento máximo da ação. Poderíamos até dizer que, o salto ideal deveria ser ensaiado com a precisão de uma figura de ‘dressage’. Na equitação rural, as provas de baliza e três tambores também são figuras automatizadas. Mas na apartação, por exemplo, a maioria dos comandos não parte do cérebro do cavaleiro. Os comandos reflexos partem do sistema nervoso do boi e são imitados pelo cavalo, em centésimos de segundo. É um duelo pessoal entre o cavalo e o boi, onde a função do cavaleiro é mostrar qual o bovino da manada que precisa ser separado, e a partir daí procurar não atrapalhar o trabalho do animal. Organizar a ação eqüestre em reflexos automatizados, sem provocar dor no cavalo, (porque isto despertará a consciência e a rebeldia do animal), é o grande segredo da equitação de alta performance, que está formando os grandes conjuntos e campeões da atualidade. Com esta nova percepção da realidade eqüina deverão também cessar as velhas rivalidades entre os sistemas de adestramento das escolas de equitação romana, germânica e de trabalho (rural ou western), que se digladiam há séculos sobre as melhores técnicas de se adestrar cavalos. Agora sabe-se que o bom sistema é aquele que se utiliza dos movimentos eqüestres na seqüência biológica em que o próprio cavalo se movimenta. Agora, também, podemos compreender porque os grandes mestres da equitação acadêmica, os homens que fizeram a história da equitação ocidental – Xenofonte, Pluvinel, Newcastle, Nestier, Eisenberg, La Guérinière, Baucher, L’Hotte, Fillis, e tantos outros, recomendavam o adestramento e o treinamento paciente, sem provocar dor no cavalo, com aulas curtas e freqüentes para não estressar o animal. “Meu objetivo é trabalhar o cavalo com calma, por pouco tempo, mas sempre” escreve Antoine de Pluvinel e “O cavalo deve ser devolvido à sua baia com o mesmo bom humor com que saiu”, recomenda La Guérinière. E a neurologia moderna confirma estas declarações.
Organizar a equitação em ações automatizadas no cavalo e no cavaleiro, demanda tempo e paciência. Mas, esta informação científica é certamente o maior trunfo da equitação do século 21, que agora promete se tornar mais bonita, mais espetacular e mais satisfatória tanto para o cavalo quanto para o cavaleiro. Mas, tudo isso poderia ter acontecido há mais de 100 anos se dois importantes personagens da história tivessem se encontrado. Com a participação involuntária de Dr. James Rooney. Particularmente eu não chamo de ‘doma’ a iniciação do cavalo para a equitação. Prefiro a expressão ‘adestramento primário’, porque este estágio se refere exatamente à fase primária da educação onde o animal aprende a aprender – sobretudo como lidar com os seres humanos com quem eles, em breve, vão ter que fundir os seus recursos neurofisiológicos durante a equitação. (2) Todas as modalidades eqüestres—o polo, o salto, o dressage—envolvem apenas três ações do cavalo: mudanças de velocidade, mudanças de direção e sustentação dos andamentos. O salto é uma mudança de direção para cima.
As Contribuições da Equoterapia na Educação Inclusiva

Maria Cristina Guimarães Brito
12 de dezembro de 2009
9 de dezembro de 2009
Postura sobre o Cavalo e a Velocidade do Passo : a influencia na ativação dos músculos eretores lombares

Média Pico
Dorsal Dorsal Dorsal Dorsal
Lento Rápido Lento Rápido
Média 56,89 77,22 103,11 142,44
Mediana 47,5 56 75 85,5
Desvio Padrão 44,92 61,31 89,81 120,77
Limite Inferior 36,14 48,90 61,62 86,65
Limite Superior 77,64 105,54 144,60 198,24
p-valor 0,001 0,004
Dorsal Dorsal Dorsal Dorsal
Lento Rápido Lento Rápido
Média 56,89 77,22 103,11 142,44
Mediana 47,5 56 75 85,5
Desvio Padrão 44,92 61,31 89,81 120,77
Limite Inferior 36,14 48,90 61,62 86,65
Limite Superior 77,64 105,54 144,60 198,24
p-valor 0,001 0,004
Para a posição de dorsal, concluímos que existe diferença significante entre as velocidades, tanto para a média quanto para o pico. Averiguamos ainda que em ambas as situações a maior média se encontra sempre na velocidade rápida.
Média Pico
Frontal Frontal Frontal Frontal
Lento Rápido Lento Rápido
Média 30,00 38,00 57,11 67,44
Mediana 25,5 28,5 47 65,5
Desvio Padrão 21,40 24,70 39,20 31,12
Limite Inferior 20,11 26,59 39,00 53,07
Limite Superior 39,89 49,41 75,22 81,82
p-valor 0,009 0,107
Frontal Frontal Frontal Frontal
Lento Rápido Lento Rápido
Média 30,00 38,00 57,11 67,44
Mediana 25,5 28,5 47 65,5
Desvio Padrão 21,40 24,70 39,20 31,12
Limite Inferior 20,11 26,59 39,00 53,07
Limite Superior 39,89 49,41 75,22 81,82
p-valor 0,009 0,107
Concluímos que existe diferença média estatisticamente significativa entre as velocidades para a posição Frontal somente nos valores de média, onde inclusive, a média da velocidade rápida é de fato maior que a média da velocidade lenta. Para pico não foi encontrada diferença significante entre as velocidades.Continuaremos comparando as velocidades, mas agora para a posição de dorsal.
Média Pico
Dorsal Dorsal Dorsal Dorsal
Lento Rápido Lento Rápido
Média 56,89 77,22 103,11 142,44
Mediana 47,5 56 75 85,5
Desvio Padrão 44,92 61,31 89,81 120,77
Limite Inferior 36,14 48,90 61,62 86,65
Limite Superior 77,64 105,54 144,60 198,24
p-valor 0,001 0,004
Dorsal Dorsal Dorsal Dorsal
Lento Rápido Lento Rápido
Média 56,89 77,22 103,11 142,44
Mediana 47,5 56 75 85,5
Desvio Padrão 44,92 61,31 89,81 120,77
Limite Inferior 36,14 48,90 61,62 86,65
Limite Superior 77,64 105,54 144,60 198,24
p-valor 0,001 0,004
Para a posição de dorsal, concluímos que existe diferença significante entre as velocidades, tanto para a média quanto para o pico. Averiguamos ainda que em ambas as situações a maior média se encontra sempre na velocidade rápida.Continuando, vamos comparar a posição frontal versus dorsal para o passo rápido:
Média Pico
Frontal Frontal Frontal Frontal
Rápido Rápido Rápido Rápido
Média 38,00 77,22 67,44 142,44
Mediana 28,5 56 65,5 85,5
Desvio Padrão 24,70 61,31 31,12 120,77
Limite Inferior 26,59 48,90 53,07 86,65
Limite Superior 49,41 105,54 81,82 198,24
p-valor 0,002 0,006
Frontal Frontal Frontal Frontal
Rápido Rápido Rápido Rápido
Média 38,00 77,22 67,44 142,44
Mediana 28,5 56 65,5 85,5
Desvio Padrão 24,70 61,31 31,12 120,77
Limite Inferior 26,59 48,90 53,07 86,65
Limite Superior 49,41 105,54 81,82 198,24
p-valor 0,002 0,006
Averiguamos que, também para o movimento rápido, existe diferença entre as posições que são consideradas estatisticamente significantes, tanto em média quanto em pico. Verificamos ainda que a média da posição dorsal é sempre a maior que a média da posição frontal.O presente estudo foi realizado apenas em indivíduos sem comprometimento motor, com o intuito de excluir possíveis interferências de tônus ou alterações de equilíbrio. A análise comparativa foi realizada através de testes estatísticos individuais, ou seja, a variação do recrutamento muscular foi vista de acordo com os dados do indivíduo com ele mesmo, para então serem pareados com os demais.Com isto, pudemos observar a interferência direta da velocidade da andadura do cavalo no grau de recrutamento muscular, como também a mudança de postura variandosignificativamente o recrutamento muscular. A variação do passo no cavalo, velocidade, estimulação da direção e equilíbrio têm comoresposta o deslocamento do centro de gravidade do paciente, facilitando na dinâmica daestabilização postural e restabelecimento da desordem motora.1,4,7,8 Portanto, é necessário que o paciente aumente o recrutamento muscular para manter-se sobre o cavalo, o que se pôde observar na diferença de ativação da musculatura analisada deste em quaisquer das posturas, em comparação tanto com o cavalo no passo lento, como deslocando-se em maior velocidade – sempre mantendo a andadura ao passo. O sistema nervoso central interpreta estes desequilíbrios como instabilidades posturais capazes de provocar queda, respondendo com aumento do tônus postural. Assim, os eretores da coluna são ativados como forma de manter suas reações de equilíbrio. Gusman e Torre (1998) definem que as reações de equilíbrio servem para ajustar a postura, manter e recuperar o equilíbrio antes, durante e depois do deslocamento do seu centro de gravidade. O estudo da atividade muscular durante os movimentos do passo do cavalo é de suma importância para o fisioterapeuta, podendo este, a partir destes dados, realizar as mudanças posturais de forma mais direcionada a cada paciente. Com os resultados obtidos, pudemos concluir que a postura dorsal solicitou sempre maior ativação muscular dos eretores lombares, conseqüentemente, é a postura que irá trabalhar com maior intensidade o controle do tronco. Na prática clínica nos deparamos com alguns pacientes que apresentam limitações articulares, decorrentes de espasticidade severa, encurtamentos musculares, e outras complicações. Estas limitações muitas vezes impedem as mudanças posturais que poderiam ser realizadas numa sessão de hipoterapia. Com isto, o trabalho baseado na velocidade do passo do cavalo tornase essencial para o direcionamento do ganho motor desejado a determinados pacientes. Vimos neste estudo que o recrutamento muscular variou significativamente nas mudanças da velocidade do passo do cavalo, o que na prática significa que, mesmo sem alterar a postura sentada no cavalo, podemos recrutar de diferentes formas e intensidades a musculatura do tronco, variando assim a intensidade do trabalho postural, sem precisar deslocar o paciente sobre o cavalo. Com isto, sugerem-se futuros estudos aplicados a patologias diversas, traçando assim a conduta terapêutica mais adequada para cada patologia tratada.
Autora: Rebeca de Barros Santos Co-autores: Fábio Navarro Cyrillo,Mayari Ticiani Sakakura,Adriana Pagni Perdigão,Camila Torriani
4 de dezembro de 2009
The Flying Change : A Mudança de Pé no Ar

Ingrid Borghoff http://www.horseworldbrasil.com.br/adestramento20041.htm
A Cadeia de Reflexos da Equitação

Como acabamos de ver, o cavalo não obedece ao cavaleiro para lhe agradar. O cavaleiro, para obter uma determinada ação do cavalo, terá de acionar a sua cadeia de reflexos (mesmo que ele não saiba disso), que vem a ser uma ‘programação’ do sistema nervoso que o animal usa na sua vida natural. Isto significa que a equitação é um processo de aprendizado bilateral. O equitador aprende a reconhecer os movimentos do cavalo e a deflagrar os seus reflexos, e este aprende a reconhecer e a automatizar o código de comandos do cavaleiro. Como a cadeia de respostas condicionadas parte do sistema nervoso do cavalo, Grisone e seus violentos seguidores podem descer do seu pedestal para aprender com o cavalo o que é a boa equitação.
“A deflagração dos reflexos naturais do cavalo está ligada a dois pontos na espinha dorsal do animal chamados de dilatação cervical e dilatação lombar (veja ilustração) . A dilatação cervical comanda as ações dos membros anteriores, e a dilatação lombar a ação dos membros posteriores. Estes dois pontos são engrossamentos do sistema nervoso central, que tem início no cérebro e corre pela coluna vertebral até a garupa do cavalo e também desce para controlar as pernas. Estas duas dilatações, quando estimuladas pelos nervos sensores, deflagram os reflexos que determinam o andamento do cavalo – o passo , o trote ou a marcha , e o galope – e também as mudanças de direção, mudanças de velocidade e demais ações eqüestres” explica Dr. Rooney. O ser humano possui um sistema reflexo automatizado semelhante que permite, por exemplo, que possamos andar e conversar ao mesmo tempo, ou dirigir um automóvel e simultaneamente discutir com um amigo o desempenho do nosso time de futebol, enquanto acionamos a alavanca do câmbio com a mão direita, pisamos na embreagem com o pé esquerdo, aceleramos com o pé direto, começamos a girar o volante com a mão esquerda e conferimos, com um olhar, o espelho retrovisor — tudo ao mesmo tempo e sem nos concentrarmos diretamente no que estamos fazendo. Poderíamos chamar esta seqüência de movimentos de ‘reflexos automatizados da direção automobilística’. Vamos examinar um exemplo prático do funcionamento da cadeia de reflexos da equitação:, depois de montar pedimos, com uma pressão das pernas, a saída do cavalo para o passo. Este comando é captado pelos nervos sensores, localizados atrás do encilhadouro do cavalo, que mandam um sinal elétrico para a dilatação cervical. De lá, um estímulo nervoso corre até o músculo protator e libera uma substância química com a qual o músculo se contrai e movimenta a perna para a frente. Estes nervos, que provocam o movimento, são chamados nervos motores. Para desencadear um passo regular este processo se repete alternadamente, com o músculo retrator movimentando o membro para trás e o músculo protrator impulsionando para frente, e assim por diante. Toda esta série de reações musculares, que determinam a coordenação das passadas, são chamadas de ações reflexas. (Atenção, nem pensar em pular este trecho do livro porque esta descrição tem para a neurofisiologia da equitação a mesma importância que a Teoria da Relatividade de Einstein para as leis da física!). Então, prosseguindo: note que os nervos sensores do cavalo captam o toque das pernas do equitador, enviam a informação para a dilatação lombar, que transforma o comando do cavaleiro num gesto reflexo do animal — ou seja, o início da movimentação do passo. “Isto quer dizer” explica Dr. Rooney, “que a protração e a retração — o movimento para a frente e para trás dos membros — que realiza a ação de andar, trotar, ou marchar e galopar, pode ser regida exclusivamente pela dilatação cervical e lombar, do cavalo sem a participação direta do cérebro do animal no processo. Isto é, com a automatização dos andamentos sem a interferência do cérebro”. Mas, como se insere o cérebro na coordenação motora do cavalo? — Continua Dr. Rooney: “Numa área do cérebro, abaixo do cerebelo, existe um conjunto de centros nervosos responsáveis pela coordenação e regulagem dos movimentos do cavalo. Eles determinam o andamento (passo, trote ou marcha e galope) e determinam a seqüência em que as pernas vão se movimentar. Se um cavalo na sua vida natural estiver pastando e se, por algum motivo prático, tomar a decisão cerebral de andar, o andamento será repetido automaticamente até haver uma nova vontade de mudar de andamento ou parar” — Finaliza Dr. Rooney. Esta pesquisa, a meu ver, permite uma conclusão extraordinária. Se um cavalo estiver bem adestrado – isto é, se o conjunto estiver com os seus sistemas sensorimotores altamente afinados, e o cavaleiro executar os seus comandos com grande sutileza, o cavalo não tem como distinguir, nos centésimos de segundo em que ocorrem os toques de comunicação da cadeia de comandos da equitação, se estas ‘dicas’ estão partindo do cavaleiro ou do seu próprio sistema sensorimotor. O cavalo não só parece estar comandando a ação – o cavalo terá a sensação de estar comandando a ação. O Dr. James Rooney, que é veterinário e não equitador, fez a meu ver, uma ou outra observação que não me parece corresponder com a realidade da neurofisiologia da equitação. A interação neurofisiológica entre o cavalo e o cavaleiro nos esportes eqüestres está, provavelmente, fora da área de atuação dos médicos veterinários e ainda não ingressou no currículo dos especialistas em fisiologia do exercício humano. Resta, portanto, a nós equitadores fazermos as primeiras observações acerca do fenômeno fisiológico da equitação que, mais do que qualquer outro, é o principal responsável pela trajetória histórica da humanidade. Dr. Rooney não tratou, por exemplo, do fato do cavaleiro também ter de organizar os seus próprios reflexos para a equitação em ações automatizadas, que se coordenarão com as do seu cavalo – o que estou chamando, aqui, de fusão neurofisiológica homem-cavalo. Transcrevi, para este livro, as observações que me pareceram as mais importantes na ótica da prática interativa da equitação, que chamaremos de neurofisiologia da equitação, um termo que me parece faltar até hoje no vernáculo da equitação.
A compreensão da fisiologia da equitação — que engloba a interação da psicologia e da neurofisiologia do Homem e do Cavalo — vai modificar radicalmente os antigos métodos de ensino da equitação sistematizados a partir da renascença italiana. A revolução na percepção do cavalo e da equitação, que está começando a ocorrer no mundo, será tão abrangente como as transformações da economia global decorrentes da introdução da informática. Para a equitação, o século 21 vai ser muito diferente daquele que passou. (Com a participação involuntária de Dr. James Rooney)
“A deflagração dos reflexos naturais do cavalo está ligada a dois pontos na espinha dorsal do animal chamados de dilatação cervical e dilatação lombar (veja ilustração) . A dilatação cervical comanda as ações dos membros anteriores, e a dilatação lombar a ação dos membros posteriores. Estes dois pontos são engrossamentos do sistema nervoso central, que tem início no cérebro e corre pela coluna vertebral até a garupa do cavalo e também desce para controlar as pernas. Estas duas dilatações, quando estimuladas pelos nervos sensores, deflagram os reflexos que determinam o andamento do cavalo – o passo , o trote ou a marcha , e o galope – e também as mudanças de direção, mudanças de velocidade e demais ações eqüestres” explica Dr. Rooney. O ser humano possui um sistema reflexo automatizado semelhante que permite, por exemplo, que possamos andar e conversar ao mesmo tempo, ou dirigir um automóvel e simultaneamente discutir com um amigo o desempenho do nosso time de futebol, enquanto acionamos a alavanca do câmbio com a mão direita, pisamos na embreagem com o pé esquerdo, aceleramos com o pé direto, começamos a girar o volante com a mão esquerda e conferimos, com um olhar, o espelho retrovisor — tudo ao mesmo tempo e sem nos concentrarmos diretamente no que estamos fazendo. Poderíamos chamar esta seqüência de movimentos de ‘reflexos automatizados da direção automobilística’. Vamos examinar um exemplo prático do funcionamento da cadeia de reflexos da equitação:, depois de montar pedimos, com uma pressão das pernas, a saída do cavalo para o passo. Este comando é captado pelos nervos sensores, localizados atrás do encilhadouro do cavalo, que mandam um sinal elétrico para a dilatação cervical. De lá, um estímulo nervoso corre até o músculo protator e libera uma substância química com a qual o músculo se contrai e movimenta a perna para a frente. Estes nervos, que provocam o movimento, são chamados nervos motores. Para desencadear um passo regular este processo se repete alternadamente, com o músculo retrator movimentando o membro para trás e o músculo protrator impulsionando para frente, e assim por diante. Toda esta série de reações musculares, que determinam a coordenação das passadas, são chamadas de ações reflexas. (Atenção, nem pensar em pular este trecho do livro porque esta descrição tem para a neurofisiologia da equitação a mesma importância que a Teoria da Relatividade de Einstein para as leis da física!). Então, prosseguindo: note que os nervos sensores do cavalo captam o toque das pernas do equitador, enviam a informação para a dilatação lombar, que transforma o comando do cavaleiro num gesto reflexo do animal — ou seja, o início da movimentação do passo. “Isto quer dizer” explica Dr. Rooney, “que a protração e a retração — o movimento para a frente e para trás dos membros — que realiza a ação de andar, trotar, ou marchar e galopar, pode ser regida exclusivamente pela dilatação cervical e lombar, do cavalo sem a participação direta do cérebro do animal no processo. Isto é, com a automatização dos andamentos sem a interferência do cérebro”. Mas, como se insere o cérebro na coordenação motora do cavalo? — Continua Dr. Rooney: “Numa área do cérebro, abaixo do cerebelo, existe um conjunto de centros nervosos responsáveis pela coordenação e regulagem dos movimentos do cavalo. Eles determinam o andamento (passo, trote ou marcha e galope) e determinam a seqüência em que as pernas vão se movimentar. Se um cavalo na sua vida natural estiver pastando e se, por algum motivo prático, tomar a decisão cerebral de andar, o andamento será repetido automaticamente até haver uma nova vontade de mudar de andamento ou parar” — Finaliza Dr. Rooney. Esta pesquisa, a meu ver, permite uma conclusão extraordinária. Se um cavalo estiver bem adestrado – isto é, se o conjunto estiver com os seus sistemas sensorimotores altamente afinados, e o cavaleiro executar os seus comandos com grande sutileza, o cavalo não tem como distinguir, nos centésimos de segundo em que ocorrem os toques de comunicação da cadeia de comandos da equitação, se estas ‘dicas’ estão partindo do cavaleiro ou do seu próprio sistema sensorimotor. O cavalo não só parece estar comandando a ação – o cavalo terá a sensação de estar comandando a ação. O Dr. James Rooney, que é veterinário e não equitador, fez a meu ver, uma ou outra observação que não me parece corresponder com a realidade da neurofisiologia da equitação. A interação neurofisiológica entre o cavalo e o cavaleiro nos esportes eqüestres está, provavelmente, fora da área de atuação dos médicos veterinários e ainda não ingressou no currículo dos especialistas em fisiologia do exercício humano. Resta, portanto, a nós equitadores fazermos as primeiras observações acerca do fenômeno fisiológico da equitação que, mais do que qualquer outro, é o principal responsável pela trajetória histórica da humanidade. Dr. Rooney não tratou, por exemplo, do fato do cavaleiro também ter de organizar os seus próprios reflexos para a equitação em ações automatizadas, que se coordenarão com as do seu cavalo – o que estou chamando, aqui, de fusão neurofisiológica homem-cavalo. Transcrevi, para este livro, as observações que me pareceram as mais importantes na ótica da prática interativa da equitação, que chamaremos de neurofisiologia da equitação, um termo que me parece faltar até hoje no vernáculo da equitação.
A compreensão da fisiologia da equitação — que engloba a interação da psicologia e da neurofisiologia do Homem e do Cavalo — vai modificar radicalmente os antigos métodos de ensino da equitação sistematizados a partir da renascença italiana. A revolução na percepção do cavalo e da equitação, que está começando a ocorrer no mundo, será tão abrangente como as transformações da economia global decorrentes da introdução da informática. Para a equitação, o século 21 vai ser muito diferente daquele que passou. (Com a participação involuntária de Dr. James Rooney)
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